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Marcelo de Souza

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29 out 2010

Dias que condensam décadas – Um olhar sobre o atual processo eleitoral – Carta Maior -


Dias que condensam décadas

A ilusão na política é uma péssima companhia. De modo geral, esse pecado é
cometido não só pela incapacidade de an alisar a correlação de forças como
também da ausência de conhecimento histórico. Há muito que comentar sobre essa
campanha. Como o Serra conseguiu, de longe, ultrapassar o Collor no jogo baixo,
sujo, próximo do gangsterismo, do banditismo, envolvendo não só o que o
professor Giuseppe Cocco chamou de leilão das paixões tristes (machismo,
sexismo, racismo), como também a montagem de um impressionante aparato
clandestino de comunicação, um esquema nacional de telemarketing destinado a
caluniar, mentir, difamar, tudo dirigido contra uma mulher, Dilma Rousseff.
Cito esses poucos exemplos, para não fazer uma longa lista, que não cabe aqui.
Depois da volta das eleições diretas, é a campanha em que a direita joga mais
sujo, e talvez nossas ilusões não permitissem antecipar essa possibilidade. Quem
sabe confiássemos num jogo democrático, quem sabe de alto nível. Quem sabe
imaginássemos um Serra ainda envolto por sua herança pré-64, verde presidente da
UNE. Quem sabe o quiséssemos pronto para o debate limpo, ele defendendo o
projeto de Brasil que de fato advoga, o Brasil neoliberal, livre das amarras da
presença do Estado, que deve ser, nesse projeto, cada vez mais mínimo, que me
desculpem a expressão pleonástica. Um Estado voltado a reprimir, o Estado do uso
da força, aliás uma de suas propostas mais caras e claras.
Nossas ilusões, talvez, incluíssem, sem que o quiséssemos, a abolição da luta de
classes. Esquecemo-nos de lições antigas. Aquelas que aprendemos no passado, e
que a vida democrática, tão prezada por nós e que devemos prezar sempre, pode
nos levar a esquecer. Vem de Marx, o velho e sempre atual Marx, a lição de que
toda a história da humanidade é a história da luta de classes. E nós podemos
dizer, com tranqüilidade, que ela está mais viva do que nunca. E o Brasil dessas
eleições é uma evidência disso. Os campos se definem claramente, e agora o que
antes poderia parecer um jogo civilizado, deixou de sê-lo, e isso desde o
primeiro turno, sem que acordássemos devidamente para isso. Descambou para o que
sem medo de errar podemos chamar, como o fazíamos antes, de ódio de classe. Um
ódio que faz questão de mostrar a cara.
A campanha do Serra mergulhou atrás do ódio. Tentou plantar na sociedade
brasileira pelos métodos mais sórdidos a semente do ódio. Até o bordão de que
comunista come criancinha voltou quase que literalmente, para sacrificar a
mulher no altar hediondo de um moralismo medieval, como disse num texto para o
Terra Magazine. Não importa que tantas mulheres, milhares delas, morram por ano
no País devido à falta de atendimento por conta de abortos feitos em condições
miseráveis, aviltantes, que atentam contra a dignidade humana. Não importa que
ele mesmo, Serra, tenha, como ministro da Saúde, determinado o atendimento a
essas mulheres. Ele mente, ele nega, e ele não cora ao mentir. É só lembrar o
caso de Paulo Preto, que ele nega hoje, e amanhã o acolhe, temeroso da ameaça
pública que o seu auxiliar lhe fez. O senso comum o compararia a Pedro, que
negou Cristo três vezes, ou a Judas, que traiu Cristo, como diz a tradição
bíblica. Talvez mais, muito mais Judas, do que Pedro.
Nós não tínhamos o direito de nos iludir. Não tínhamos o direito de ignorar as
leis da luta de classes, que aprendemos com tanto rigor anteriormente. Será que
ao nos convertermos à democracia, e digo nos convertermos porque durante algum
tempo muitos de nós, da esquerda, a víamos como algo tático, será que então
pensamos nela como um solene baile de valsa? Como um teatro onde todos se
respeitam? Uma democracia onde as regras são aceitas e cumpridas? Onde os
projetos são tratados habermasianamente? Todas essas ilusões se firmaram,
talvez, porque nem nós mesmos ainda alcançamos a dimensão, o significado do
projeto político que estamos encabeçando no Brasil, a importância que ele tem
para o povo brasileiro e para o mundo, especialmente para os povos dos países
mais pobres, os povos do Sul da humanidade.
Seria possível imaginar que esse projeto era do agrado de todos? Será que não
compreendemos que esse era um governo de esquerda para as condições do Brasil e
do mundo? E por isso suscetível de gerar tanto ódio? Será que não tínhamos a
dimensão de que forças internacionais torcem, e queiramos que seja só torcida,
para que esse projeto seja derrotado? Será que não sabíamos que o projeto
político que estamos levando à frente criou uma impressionante rede de
solidariedade entre nós e a América do Sul, o Caribe, a África, a Ásia? E que
isso não pode agradar aos EUA? Será que um projeto que distribui renda como nós
o fizemos, a maior distribuição de renda de toda a nossa história, ia ser
tratado com punhos de renda pela direita brasileira?
O ódio deles tem razão de ser. E os métodos deles, é lamentável dizer isso,
tinham de ser esperados por nós. Era previsto que eles agissem assim. Esperamos
uma direita civilizada, ao contrário de tudo o que nos diz a nossa história. E
digo isso não para afirmar qualquer coisa na linha de que deveríamos responder
na mesma moeda. Se já tivéssemos compreendido isso desde o primeiro turno,
deveríamos ter nos mobilizado, estimulado muito mais a nossa militância,
deveríamos ter nos preparado para a hipótese do segundo turno, deveríamos também
chamar para nós algumas teses caras à nossa juventude, tratado melhor os sonhos
de tanta gente, que ainda quer ir além do que estamos fazendo, e ainda bem que
há essa gente.
Temos poucos dias. Eles são decisivos. Estamos vivendo aqueles dias que
condensam décadas. Aqueles dias que decidem o destino da Nação. O destino do
povo brasileiro. Nossa inserção no mundo. Decide-se se o Brasil irá continuar a
ser um protagonista central no mundo, um aliado fundamental dos países mais
pobres, ou se voltará a ser vassalo dos grandes centros do capitalismo mundial,
tal e qual o foi o governo demo-tucano, sob o professor Fernando Henrique
Cardoso. Os militantes do PT, com sua vitalidade, seus sonhos de sempre, têm que
ganhar as ruas, como estão fazendo mais e mais nas últimas horas. E têm que
chamar a todos os que têm compromissos com esse projeto, da esquerda ao centro,
para que não descansem até a vitória. As pesquisas têm indicado uma consolidação
da preferência do povo brasileiro, que tem amadurecido muito nos últimos anos.
Isso, no entanto, não nos autoriza a descansar um minuto que seja. Afirmar a
democracia no Brasil é lutar para que esse País continue a distribuir renda e a
crescer, e isso só é possível com a vitória de Dilma. O povo brasileiro vencerá.
(*) Jornalista, escritor.
Artigo publicado na Carta Maior (21/10/2010)
Emiliano José
Fonte: Carta Maior, 21/10/2010


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